Copa de 1994 ajudou a resgatar o “jogo bonito” da mediocridade, e 2026 promete repetir o feito
Antes da Copa do Mundo de 1994 — a primeira realizada nos Estados Unidos —, os jogadores foram convidados a fazer algo que nunca haviam feito antes:assinar uma declaração defair play. O documento, no qual as estrelas do futebol da época se comprometeram a respeitar as regras e os
Antes da Copa do Mundo de 1994 — a primeira realizada nos Estados Unidos —, os jogadores foram convidados a fazer algo que nunca haviam feito antes: assinar uma declaração de fair play. O documento, no qual as estrelas do futebol da época se comprometeram a respeitar as regras e os adversários, fazia parte de um plano da Fifa para restaurar a reputação do futebol como o “jogo bonito”. E as expectativas eram altas antes do pontapé inicial.
Afinal, não poderia ser tão ruim quanto a edição anterior do torneio, realizada na Itália quatro anos antes. Aquele evento sombrio deixou um gosto amargo no mundo do futebol. Observando que ela teve a menor média de gols por jogo na história das Copas do Mundo, Eduardo Galeano, conhecido como o poeta laureado do futebol mundial, escreveu que a Copa da Itália de 1990 consistiu em “um futebol enfadonho, sem uma gota de ousadia ou beleza”.
As observações não se referiam apenas à estética do jogo – partidas tediosas, desprovidas de mérito técnico e desagradáveis de assistir. Elas também apontavam para sua ética – comportamentos e estratégias questionáveis que menosprezavam o futebol e seus praticantes. Essa foi uma época em que predominavam a catimba, as faltas intencionais, o exagero e os esquemas defensivos.
O estado do futebol após a Itália 1990 exigia uma abordagem holística para compreender e melhorar o jogo.
Há quase 30 anos, venho estudando a ética e a estética do futebol tanto como filósofo do esporte quanto como aficionado pelo belo jogo. Nesse tempo, vi como mudanças bem pensadas nas regras moldaram o jogo para melhor. Isso me deixou esperançoso de que, citando Galeano, o futebol não está “condenado à mediocridade”.
A resposta da Fifa
Analisando a Itália 1990, o jornalista esportivo do Los Angeles Times Grahame Jones insistiu que algo precisava ser feito para aumentar o número de gols e pôr fim à “abordagem cínica de não perder a qualquer custo” que dominava o jogo.
A Fifa não ignorou essas críticas. Isso ficou bem evidente no relatório técnico da entidade sobre o torneio, que descreveu a final entre Argentina e Alemanha Ocidental — uma feia vitória por 1 a 0 para esta última — como “uma péssima propaganda para o futebol”.
O relatório não estava errado. Olhando para trás, a final foi marcada por faltas intencionais, o primeiro cartão vermelho em uma final de Copa do Mundo e muitas simulações, incluindo “mergulhos” – uma manobra que os jogadores usam para enganar os árbitros e obter uma decisão favorável. De fato, o incidente que resultou no pênalti a partir do qual a Alemanha Ocidental marcou seu gol é amplamente visto como um caso de simulação. Aquela partida ilustrou o futebol sem criatividade e negativo jogado ao longo de todo o torneio.
Sepp Blatter, então secretário-geral da Fifa e posteriormente seu criticado presidente, concluiu que “há algo de errado com este jogo”. Suas principais preocupações, compartilhadas por muitos na comunidade do futebol, eram a catimba e a “cera”, as faltas intencionais e o exagero dramático que foram comuns na Itália 1990.
Para abordar essas preocupações e melhorar o jogo, a Fifa criou uma comissão composta principalmente por ex-jogadores e ex-técnicos. Baseando-se em grande parte nas observações desse grupo logo após a Copa do Mundo de 1990, a Fifa e a International Football Association Board, órgão que supervisiona as regras do jogo, decidiram implementar mudanças.
Uma mudança fundamental foi a adoção de um sistema de três pontos para vitórias durante a fase de grupos da Copa do Mundo de 1994, em vez de dois. Isso significava que as equipes eram mais recompensadas pelas vitórias, incentivando um jogo criativo e positivo em vez de um jogo sem criatividade e defensivo, voltado para garantir uma vitória ou arrancar um empate.
Outra mudança foi o aprimoramento da regra do impedimento para torná-la menos restritiva para os atacantes que tentavam marcar gols. Além disso, os árbitros foram instruídos a aplicar as regras relativas a faltas e condutas indevidas de forma mais rigorosa – uma medida destinada a proteger os jogadores e sua criatividade.
Mas a mudança mais significativa foi a introdução da regra do passe para trás, que acabaria por revolucionar o jogo. Essa regra proibia os goleiros de receberem a bola com as mãos se um companheiro de equipe a chutasse deliberadamente para eles.
O objetivo era coibir a típica cera orquestrada por goleiros e defensores, que era dolorosa de assistir.
No geral, o objetivo dessas mudanças era melhorar a estética do jogo, promovendo partidas com jogadas criativas e voltadas para o ataque que fossem agradáveis de assistir, bem como sua ética, desencorajando e punindo comportamentos e estratégias que desrespeitassem as habilidades essenciais do futebol e os adversários.
Todas essas quatro mudanças já estavam em vigor quando 24 nações disputaram o torneio nos nove estádios dos EUA durante a Copa do Mundo de 1994.
O mesmo valeu para a exigência da Fifa de que os jogadores assinassem sua declaração de fair play. Embora esta última fosse, em grande parte, um gesto simbólico destinado a enfatizar comportamentos e estratégias desejados e minimizar as artimanhas, o torneio foi, mesmo assim, um espetáculo melhorado.
Em seu relatório técnico do torneio, a Fifa proclamou que “EUA 1994 foi muito melhor do que Itália 1990”, com “mais gols, menos faltas, mais jogadas de ataque e quase nenhum incidente desagradável entre os jogadores”.
Embora para a Fifa tenha sido “muito encorajador ver que as novas medidas… foram tão bem-sucedidas”, ela admitiu que a final entre Brasil e Itália, vencida pelo Brasil na disputa de pênaltis, “não correspondeu às expectativas”, com “poucos destaques em termos de habilidade pura”.
Apesar de uma final medíocre, a Copa dos EUA de 1994 foi vista com bons olhos. George Vecsey, em reportagem para o The New York Times, falou por muitos quando disse: “Foi uma Copa do Mundo muito boa”.
O que esperar de Canadá/México/EUA 2026?
Muita coisa mudou no futebol desde EUA 1994. Mas o esporte definitivamente se beneficiou das mudanças introduzidas antes daquele torneio e de algumas que vieram depois.
Em 1998, por exemplo, a Fifa introduziu a regra dos seis segundos, que proíbe os goleiros de controlar a bola com as mãos por mais de seis segundos. Por fim, novas sanções para ações como simulações de falta, juntamente com o uso de assistência por vídeo para os árbitros, foram introduzidas.
Outros avanços contribuíram para o desenvolvimento do esporte, desde melhores métodos de treinamento e cuidados médicos até táticas inovadoras e aprimoramento de habilidades, ampliação da identificação e desenvolvimento de jovens talentos e planos de jogo baseados em dados.
É evidente que o nível do esporte foi elevado. A Fifa considerou a última Copa do Mundo, realizada no Catar em 2022, como tendo “produzido, sem dúvida, um dos jogos de futebol mais complexos e divertidos em termos técnicos e táticos que a Copa do Mundo já viu”, culminando em “uma partida brilhante” que muitos consideram “uma das melhores finais da Copa do Mundo da Fifa já testemunhadas”.
Dado o estado atual do jogo, é razoável esperar um futebol emocionante e agradável de assistir na próxima Copa do Mundo, cossediada por Canadá, México e Estados Unidos. Isso não significa que a perda de tempo, as faltas intencionais e as simulações – bem como jogadas ocasionalmente prosaicas – não irão mostrar sua face feia. Tais táticas não foram, e provavelmente nunca serão, erradicadas do jogo. Considere também formas relativamente novas de trapaça, como a manipulação dos procedimentos de substituição ou espionar os rivais.
Mas embora ainda haja quem adote as “artes obscuras” no futebol, tais práticas não parecem ter a aceitação que tinham antes. De fato, há uma crença generalizada de que o futebol está vivendo outra era de ouro. E mesmo que o futebol tenha muitas falhas éticas e estéticas, tanto dentro quanto fora de campo, o belo esporte parece ter sido amplamente restaurado.
Artigo traduzido do original em inglês por Cesar Baima, editor do The Conversation Brasil
César R. Torres é Professor Emérito de Cinesiologia, Estudos Esportivos e Educação Física na Faculdade de Brockport, da Universidade Estadual de Nova York
Por Cesar R. Torres, Associate Professor of Kinesiology and Philosophy, Penn State. Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.